A Gazeta: assaltos a bancos levam pânico ao interior do Mato Grosso

Silvana Ribas
A Gazeta

O erro nas contas com e o prejuízo no caixa no final do dia de trabalho deixou de ser o maior problema dos bancários, que hoje têm como principal preocupação não ser alvo de assaltantes. Eles podem ser vítimas da modalidade de roubo do tipo “Novo Cangaço”, quando quadrilhas com mais de 10 integrantes rendem a agência toda, utilizam armas pesadas, fazem reféns e matam, inclusive clientes.

Mas se o bancário for gerente ou tesoureiro da agência, corre o risco de ser alvo do roubo “Sapatinho”, quando a família vira refém enquanto o funcionário é obrigado a abrir os cofres e entregar o dinheiro para os criminosos, que agem sem serem percebidos.

Nesta última modalidade, o drama se concentra apenas no pequeno grupo familiar, como ocorreu esta semana na cidade de Confresa (1.160 km a nordeste de Cuiabá). Este tipo de crime não é novo, e já vem sendo registrado em Mato Grosso desde 1998. Já foram 16 casos, com a identificação de autores em 9 deles.

Segundo o delegado Luciano Inácio da Silva, titular da Gerência de Repressão a Sequestro e Investigações Especiais (GRSIE), da Polícia Civil, no banco de dados da instituição já estão cadastrados pelo menos 120 criminosos que agem neste tipo de crime. Muitos integram os grupos que atuam em assaltos mais violentos também.

A modalidade foi “lançada” há mais de 10 anos, por uma família de criminosos do interior do Paraná. Eles disseminaram a técnica para outros estados. Três membros da família foram mortos durante um confronto no cerco a casa de uma gerente de banco daquele Estado.

A característica do roubo “Sapatinho” está no fato que os criminosos geralmente chegam a pé, sem chamar a atenção. Preferem as agências de cidades do interior, onde levantar a rotina do gerente da agência e localizar a família é muito mais fácil.

O delegado Luciano cita o caso de um dos roubos, onde os criminosos acompanharam o gerente a uma partida de futebol dele com amigos, enquanto parte do grupo ficou na casa da vítima “tomando conta” da família, até que o plano do assalto da agência bancária fosse finalizado.

O perfil destes criminosos é de audácia. Planejam a ação e não usam de força física, mas da intimidação e tortura psicológica com as vítimas. O delegado cita o caso da dupla Gilmar Félix da Silva e André Luís da Silva, que hoje está foragida e tem participação em vários destes crimes.

Normalmente usam os carros das vítimas, nos quais se deslocam para não chamar a atenção de vizinhos. Lembra o caso do gerente de uma agência de Alto Araguaia, em que os familiares foram levados até Várzea Grande e ficaram com criminosos, dentro do veículo, no estacionamento de um supermercado, até que o dinheiro da agência fosse retirado. Quando o dinheiro já estava garantido, a família foi liberada. Este caso foi registrado em 2000.

Em 2001, em Cuiabá, uma gerente da Caixa Econômica também teve a filha sequestrada e foi obrigada a abrir o cofre da agência. Em 2002, os alvos foram as agências bancárias de Diamantino e Poxoréo. Três casos foram registrados no ano de 2003, um em Cuiabá, um em Barra do Bugres e o outro em Vila Rica. Em Barra do Bugres, os criminosos levaram R$ 200 mil e em Vila Rica R$ 60 mil.

Em Nobres, em 2004, o trio de assaltantes identificado como André Luís da Silva, Geraldo Rodrigues de Souza e João Paulo Gonçalves de Almeida foi responsável por roubar no “Sapatinho” R$ 100 mil da agência do Banco do Brasil. A dupla Rafael Rabelo Júnior e Flávio Rodrigues de Oliveira foi identificada como a autora do roubo a agência do Basa, em Cuiabá, em 2005.

No ano seguinte, Rabello também participou do roubo a agência em Campo Verde, quando mesmo depois de roubar R$ 299 mil, acabou sendo preso. Ele se perdeu durante a fuga e o dinheiro foi recuperado.

Durante todo tempo o gerente da agência foi mantido com o criminoso e obrigado a carregar o pesado malote com o dinheiro. Em 2007, o alvo foi a agência do Sicredi, em Nobres. Outras tentativas do mesmo crime foram registradas e investigadas, garante Luciano Inácio.

Mas a rotatividade dos grupos é grande e o deslocamento também. Tanto que alguns deles já morreram em confrontos durante assaltos a bancos em outros estados. Outros foram presos depois dos roubos. Mesmo assim, sempre há um criminoso solto, apto a praticar o crime, já que o sistema de comunicação dos grupos funciona como a rede de relacionamentos da internet, onde há sempre contato entre os “amigos” habilitados e disponíveis.

Para prevenir a ação dos criminosos, a sugestão é que os gerentes e funcionários responsáveis pelos cofres orientem suas famílias para evitar a exposição ou dar informações a pessoas estranhas sobre a rotina ou paradeiro.

Mas se o policiamento reduzido nas cidades do interior é fator que atrai os criminosos, as longas distâncias a serem percorridas e os riscos de enfrentar cerco policial em rodovias acaba se tornando um fator de risco para os ladrões. Por isso, muitos preferem trazer as vítimas mantidas em cárcere até cidades maiores, para dificultar a ação da Polícia.

Sindicato – O Sindicato dos Empregados e Estabelecimentos Bancários e do Ramo Financeiro de Mato Grosso (Seeb-MT) apontou que no ano passado foram 16 roubos a agências e postos bancários no Estado, destes, 7 com reféns. Para o presidente do Seeb-MT, Arilson da Silva, o assunto é grave e precisa de respostas urgentes dos gestores da segurança pública no Estado. Lembra que não só trabalhadores dos bancos, mas a sociedade em geral está cada vez mais exposta a ação destes criminosos.

Ele assegura que hoje os trabalhadores dos bancos, principalmente no interior, vivem em pânico, temendo serem os próximos alvos de grupos armados.

O sindicato já oficializou o pedido de audiência para tratar o tema com o secretário de Justiça e Segurança Pública, Diógenes Curado, e aguarda resposta.

E enquanto os criminosos se especializam e atuam em várias frentes, que vão desde os assaltos, passando pelas saidinhas de banco, onde as vítimas são os clientes, roubados ao deixarem as agências, os banqueiros não investem na mesma proporção. Faltam blindagem nos vidros das fachadas dos bancos. As câmeras de segurança são insuficientes e não atendem as necessidades.

Os clientes estão expostos enquanto usam os caixas eletrônicos e a segurança é insuficiente. “A cobertura das seguradoras para o roubo eliminam os prejuízos na visão dos banqueiros. Mas as vidas de funcionários e clientes não estão sendo consideradas”, alerta o sindicalista.

Na opinião dele, deve haver um esforço conjunto, entre o setor da segurança pública com o comprometimento dos banqueiros em reverter parte dos milionários lucros dos últimos anos investindo em segurança, não só de agências, mas de postos avançados. Os conhecidos “caixas eletrônicos” hoje deixaram de ser atrativos em muitos comércios para se transformarem em risco para clientes e funcionários.

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