1535 resultados Ver todos os resultados
1535 resultados Ver todos

Grandes empresas de tecnologia detêm informações políticas e econômicas

Imagem ilustrativa

Controle de sistemas de busca, interação e armazenamento do mundo digital, por grandes corporações, concentradas em sua maioria nos Estados Unidos, geram um colonialismo digital

Se o Brasil já amarga o fato de ser um país de desenvolvimento industrial tardio, o cenário fica ainda pior quando analisamos a produção de tecnologias digitais com o selo 100% verde e amarelo, justamente em um setor central para a correlação de poder no mundo: Inteligência Artificial (IA). O alerta é do doutor em Ciências Políticas da Universidade de São Paulo (USP) e professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), Sérgio Amadeu, que palestrou na mesa “IA e seus impactos na vida, no emprego e na sociedade”, durante a 26ª Conferência Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro, na manhã deste sábado (8).

Apesar de ter um número expressivo de universidades e centros de pesquisa, estruturas públicas que geram grande quantidade de dados e inúmeras empresas de estatais de tecnologia da informação, o país não aparece entre os desenvolvedores de modelos significativos de IA.

“A maioria ou quase a totalidade dos países está destinada a ter papel secundário ou irrelevante no ecossistema de desenvolvimento das tecnologias chamadas de inteligentes. E as barreiras para a entrada no setor estão se elevando em níveis superiores aos do mundo industrial”, destacou Amadeu, que também é militantes na batalha pelo software livre.

Dados de 2022, apresentados por ele no evento, mostram que os Estados Unidos possuíam, naquele ano, 16 sistemas significativos de aprendizado de máquinas, o Reino Unido oito e a China três. Canadá e Alemanha possuíam dois sistemas, cada um, e França, Índia, Israel, Rússia e Singapura um sistema por país.

“Há também uma concentração significativa no mercado de armazenamento de dados e dos chamados serviços de nuvem”, continuou o ativista digital. “Em 2021, apenas cinco empresas detinham 81,2% desse mercado mundial de infraestrutura de serviços”, completou. Essas cinco grandes empresas da tecnologia (big techs) são Amazon (com 38,9% do mercado); Microsoft (21,1%); Alibaba (9,5%); Google (7,1%); e Huawei (4,6%). Sendo que, no ano seguinte, em 2022, a Amazon e Microsoft ampliaram ainda mais a participação neste mercado para 40% e 21,5%, respectivamente.

Dependência

Amadeu ressaltou que essa divisão internacional não pode ser avaliada apenas do ponto de vista competitivo e comercial, de empresas e países que concentram a oferta de IA, mas do controle de informações decisivas para a segurança e dependência nacional.

“Em seu livro Colonialismo digital: o império dos EUA e o novo imperialismo no Sul Global, Michel Kwet afirmou que o colonialismo digital, exercido principalmente pelos Estados Unidos, se baseia no controle do hardware, software e conectividade. No texto, ele escreve que ao controlar o ecossistema digital, as grandes corporações controlam também experiências mediadas pelos computadores e isso lhes dá direito sobre questões políticas, econômicas e culturais, portanto sobre o domínio de vidas. Esse é um novo controle imperial", completou o cientista político.

Pesquisa realizada pela Educação Vigiada, também utilizada na palestra por Sérgio Amadeu, revela que 71,53% das universidades brasileiras utilizam os e-mails do Google e outras 7,64% e-mails da Microsoft.

Amadeu destacou ainda que, durante o mandato de Bolsonaro, em 2020, o governo brasileiro, por meio do Ministério da Educação, contratou a Microsoft, que passou a hospedar em sua nuvem o Sistema de Seleção Unificada (Sisu) que, atualmente, tem a inscrição de mais de 1,5 milhão de estudantes.

Outro caso que chama ainda mais a atenção é do SouGov.br, que precisa ser utilizado pelos servidores do poder público federal, lançado também durante a gestão Bolsonaro, em 2021. Ao aceitar os termos de uso e política de privacidade do aplicativo, o usuário é chamado a consentir com a transferência internacional de suas informações à Microsoft, responsável pelo sistema.

Cada vez mais caro e complexo

Um ponto crítico dessa escalada de produção de IA é que, por ter a produção altamente concentrada, sua atualização está cada vez mais complexa e cara, tornando difícil a quebra de oligopólios no setor.

Sérgio Amadeu mostrou que, em 2022, a indústria era responsável por 32 dos sistemas significativos de aprendizado de máquinas, enquanto que, parcerias entre indústria e academia responsáveis por um sistema, organizações colaborativas e coletivos de pesquisa por dois sistemas cada um, a academia por um sistema e setores sem fins lucrativos (que em anos anteriores chegaram a se desenvolver na área) já não tinham nenhum sistema em andamento.

O cientista político também citou uma matéria publicada na MIT Technology Review, sobre a privatização da IA que revelou que, atualmente, para competir no setor é necessária uma “enorme intensidade de recursos para produzir resultados dignos”, poder que somente as grandes empresas detém, tornando cada vez mais difícil a geração no meio acadêmico.

A título de exemplo, o chat GPT-2, lançado pela Microsoft no final de 2019, foi treinado com 1,5 bilhão de parâmetros. O sistema mais atualizado, chat GPT-3, foi treinado com 175 bilhões de parâmetros e a previsão é que o GPT-4 leve essa escala aos trilhões.

O PaLM, concorrente do GPT, desenvolvido pela Google e lançado em 2022, foi treinado com 540 bilhões de parâmetros e custou cerca de US$ 8 bilhões (valor 160 vezes maior do que custou o GPT-2).

Desafios do Brasil para enfrentar o cenário

“O pesquisador de desenvolvimento científico, Nathan Rosenberg, evidenciou que um país pode ser usuário, copiador ou desenvolvedor de tecnologias digitais e o Brasil é usuário”, destacou Sérgio Amadeu, completando que, atualmente, “os elementos essenciais que sustentam a revolução tecnológica são os semicondutores, as infraestruturas de armazenamento e de processamento”.

Amadeu observou que o Brasil é um país fornecedor de dados para big techs, com usuários de serviços e produtos desenvolvidos e treinados com dados da população que tem desenvolvedores de aplicativos. No entanto, estes utilizam grandes modelos que rodam nas estruturas das gigantes da tecnologia. Mas, para o cientista político, há caminhos estratégicos para o Brasil superar este cenário.

“As nossas condições reais estão no número expressivo de universidades, centros de pesquisa, de estruturas públicas que geram grande qualidade de dados, além da diversidade cultural", pontuou. "Também temos inúmeras empresas estatais de tecnologia da informação, uma economia diversificada e usuária intensa de tecnologias informacionais e grande autonomia na gestão da internet do país", completou.

Entretanto, para aproveitar essas condições, os empecilhos que o país precisa superar não são fáceis e incluem a cultura do menor esforço das elites nacionais e que detém recursos que poderiam ser investidos no setor. "Soma-se a isso a consolidação da doutrina neoliberal no país, que bloqueia investimentos expressivos em áreas públicas para tecnologia da informação", frisou o ativista digital. "E, além da dependência forte de softwares e hardwares fundamentais, temos grandes dificuldades na formação de técnicos, engenheiros e matemáticos", concluiu.

Notícias Similares

Imagem ilustrativa

Campanha Nacional: direitos para pessoas com deficiência e neurodivergentes entram no foco das negociações

#JuntosPorInclusão: trabalhadores organizam ainda tuitaço para mobilizar categoria por ambiente de trabalho inclusivo; Segurança bancária, nos ambientes físicos e digitais, também será debate nesta mesa de negociação

Imagem ilustrativa

Empregados cobram mesa de negociações sobre a Funcef

Contraf-CUT enviou ofício à Caixa reiterando pedido para que o banco e a administradora dos fundos negociem com a representação dos trabalhadores uma proposta que não gere prejuízos aos participantes

Imagem ilustrativa

Financiários exigem fim de terceirizações e formalização do teletrabalho no setor

Movimento sindical também denunciou o aumento de contratações de correspondentes bancários, repassando os serviços para empresas que não cobrem os mesmos direitos reivindicados pela categoria

Imagem ilustrativa

Reforma tributária: os próximos passos

Senadores querem que governo retire pedido de urgência na votação

Imagem ilustrativa

Caixa: Empregados cobram respeito à jornada e pagamento de extras

Preocupação com denúncias envolvendo a Caixa Asset e reivindicação para que haja negociações em mesa sobre a Funcef também foram abordadas

Imagem ilustrativa

Financiários cobram igualdade salarial e de oportunidades para mulheres e negros no setor

Com base em levantamento do Dieese, trabalhadores e trabalhadoras mostraram distorções salariais de gênero e raça

Imagem ilustrativa

Começa negociação com a Caixa

Em pauta questões relacionadas à jornada e ao teletrabalho; empregados cobram devolutiva das reivindicações da reunião anterior e negociações em mesa sobre a Funcef

Imagem ilustrativa

Campanha Nacional: 65% das bancárias apontam igualdade de oportunidades como prioridade

Movimento sindical reivindica ainda novo Censo da Diversidade, que todos os bancos façam adesão ao programa Empresa Cidadã e realizem ações de permanência e ascensão das populações mais vulneráveis

Imagem ilustrativa

Tuitaço: bancários protestam nas redes por igualdade de oportunidades nesta quinta (11)

Ação nas redes se concentrará das 9h às 11h, com a hashtag #JuntosPorIgualdade: relatório do Dieese mostra que mulheres bancárias ganham em média 20% menos que os homens bancários

Imagem ilustrativa

Campanha Nacional: Igualdade de Oportunidades será o tema da 3ª reunião com Fenaban, dia 11

Trabalhadores reivindicarão paridade salarial entre homens e mulheres e tratamento igual nos processos de ascensão dentro dos bancos para mulheres, negros, LGBTs e PCDs

Não há mais itens para carregar no momento