Golpe comandado por patrão não pode ser bom para trabalhador

Questão de lógica: se de um lado da luta estão Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), CNI (Confederação Nacional da Indústria) e CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), todas entidades patronais, certamente esse não é o lado do trabalhador.

Em entrevista ao Portal da CUT, o presidente nacional da Central, Vagner Freitas, aponta porque o impeachment recebe tamanho apoio dos empregadores. É a oportunidade para que parlamentares aliados aos patrões possam ter caminho livre para fazer com que o Brasil volte à época do sucateamento de direitos e das privatizações. Isso sem passar pelas urnas, onde os golpistas perderam nas últimas quatro eleições.

Vagner fala ainda sobre a razão da derrubada de Dilma não acabar com a crise, ao contrário, gerar mais instabilidade e como a política e o próprio Congresso correm risco com o aprofundamento desse cenário.

O que os trabalhadores podem esperar da CUT neste momento de ataque à democracia?
Vagner Freitas – A defesa dos direitos, uma luta que norteia a nosso atuação desde o início. É bom deixar claro, o golpe não é contra o PT, o Lula ou a Dilma, é contra os direitos dos trabalhadores, contra os direitos sociais e contra a liberdade de expressão.

Os mesmos deputados e empresários que defendem o impeachment são os que propuseram a lei da terceirização na atividade-fim (PL 4330 aprovado na Câmara e que seguiu para o Senado como PLC 30) para demissão dos contratados diretos e contratação de terceirizados com metade dos salários e benefícios. São os mesmos que no governo Fernando Henrique Cardoso tentaram acabar com a CLT, alterando o artigo 618 da Constituição, quando a CUT fez uma guerra em nível nacional e conseguiu barrar. São os mesmos que defendem a jornada de trabalho flexível para que o empresário possa adequar a jornada às suas necessidades. Basta lembrar o que disse o vice-presidente da Fiesp, Benjamin Steinbruch, em 2014, quando falou que esse era o momento de flexibilizar direitos trabalhistas, que nos EUA o trabalhador almoça com uma mão e opera máquina com outra.

São aqueles não concordam com a licença-maternidade de seis meses, que são contra medidas que favoreçam a divisão de responsabilidades familiares para que as trabalhadoras tenham condições iguais no mercado de trabalho.

Aqueles que estão propondo o golpe são os mesmos que, durante as últimas eleições, apoiaram o Aécio Neves (candidato do PSDB à presidência) e achavam errada a construção de uma política nacional permanente de valorização do salário mínimo, criada no governo Lula e mantido no governo Dilma. Eles alegam que isso causa inflação e não ajuda na competitividade. Além do ódio contra a presidenta e contra o PT, há o ódio contra os movimentos sociais organizados por parte de uma direita virulenta que não tem voto porque não tem expressão popular, mas que utiliza o Poder Judiciário e a mídia para chegar à presidência no ‘tapetão’. Isso significa também perseguição ao direito de organização, de construção de sindicatos.

Você acredita em prejuízo para a economia num possível impeachment?
Vagner Freitas – Um governo liderado pelas pessoas que defendem o golpe significaria retroceder à era FHC (ex-presidente Fernando Henrique Cardoso), quando lutávamos por um salário mínimo equivalente a US$ 100 (atualmente equivale a US$ 258) e quando entregaram todas as empresas que puderam ao mercado internacional a preço de banana com a demissão de milhares de trabalhadores.

A volta desse governo que seria comandado por Temer (Michel Temer, vice-presidente) e Aécio significaria a privatização da Petrobrás, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal. Vamos voltar ao tempo em que as campanhas salariais serviam meramente para manter direitos e não para ter avanço. Eu era dirigente sindical bancário nessa época e só lutávamos para ter a reposição da inflação.

O golpe significa dar uma marcha ré em direção à retirada de direitos, privatização e retirada de políticas sociais. Porque a ideia é que os beneficiários de programas como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, política de cotas para universidade e Fies utilizam indevidamente recursos públicos.

O trabalhador tem de ficar atento a quem defende o impeachment, liderado por Fiesp (Federação dos Trabalhadores do Estado de São Paulo), CNI (Confederação Nacional da Indústria) e CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), todas entidades patronais. O patrão não defende o interesse do trabalhador, ao contrário, ele o explora. Então, se está ao lado do golpe, obviamente, o nosso é o outro, da defesa das conquistas que tivemos nos últimos 12 anos.

E não existiu momento que avançamos mais do que nos governos Lula e Dilma. As reclamações que fazemos hoje é porque achamos que dá para avançar ainda mais. Mas se compararmos Lula e Dilma com Fernando Henrique, Fernando Collor e anteriores, veremos que crescemos muito mais. E essa é uma das razões do golpe, os defensores do impeachment acham que conquistamos direitos demais. Esse é um momento de luta de classes.

Com o golpe, você acredita numa nova conjuntura em que a política perca espaço para o Judiciário, por exemplo?
Vagner – Sim, porque quem defende o golpe também defende um modelo de dominação que tem aversão a partido político e ao Congresso Nacional. A ideia é manter a dominação por meio de corporações e carreiras de Estado. Aqui no Brasil querem enfraquecer partidos e o Congresso para governar com poder financeiro, polícia federal, Ministério Público Federal, o Judiciário num processo de criminalização da política.

Os deputados que estão julgando a presidenta Dilma não tem expressão social, os que se apresentam a favor do impeachment são sempre da bancada da bala, ruralista. Não são expressão da opinião pública brasileira, inclusive, porque não se importam com ela.

"Além do ódio contra a presidenta e contra o PT, há o ódio contra os movimentos sociais organizados por parte de uma direita virulenta que não tem voto porque não tem expressão popular, mas que utiliza o Poder Judiciário e a mídia para chegar à presidência no ‘tapetão’."

Vagner Freitas, presidente nacional da CUT

Mas, na prática, como tudo isso afeta o trabalhador?
Vagner – Há um viés econômico por trás desse golpe e isso interfere diretamente na vida do trabalhador. Por que há uma guerra em torno do controle do pré-sal? Porque o Lula e a Dilma colocaram que parte do lucro aferido na prospecção do pré-sal é para investir em políticas públicas de educação e saúde. E eles não querem isso. Primeiro, porque não querem uma sociedade informada, educada, não apenas condicionada a pensar o que a classe dominante quer que pensem. Porque mais educação criará uma massa critica que exigirá democracia, participação e questionará cada vez mais, Isso favorece diretamente quem depende dos serviços públicos.

Segundo, porque isso faz com que as multinacionais deixem de ganhar dinheiro aqui. O controle da indústria de petróleo e gás é extremamente importante e o Brasil pode ser protagonista nesse campo, enquanto em outros lugares esses recursos se exauriram. Por isso o interesse dos EUA e de outras potências para que esse governo não aconteça, não tenha possibilidade de avançar.

Além disso, o Brasil cresceu como um país importante, num continente importante, construiu alianças com governos que pensaram com o mesmo ideário brasileiro, tem posição importante no comércio internacional e ajudou a criar o BRICS (bloco formado por Brasil, Rússia, Índia e China e África do Sul), um bloco que ainda propôs uma moeda para contrapor ao dólar.

A mobilização dos trabalhadores deve ser em torno de um projeto e contra um golpe pela desregulamentação dos direitos trabalhistas, como aconteceu no México, Chile e outros e que hoje trazem uma realidade crítica, onde é cada um por si, sem sindicatos fortes para representar e legislação trabalhistas para dar amparo legal. É o negociado contra o legislado e hoje sabemos que não temos as mesmas condições que os empresários têm.

Quais condições são essas?
Vagner – Você tem prática antissindical no Brasil. Em muitas empresas, quando o trabalhador se sindicaliza é demitido. Isso quando o sindicato não é impedido de ter acesso aos trabalhadores. Não tem organização no local de trabalho, sindicato é da porta para fora, e quando o empregador não concorda com a forma de abordagem às bases, ele entra com um instrumento chamado interdito proibitório para impedir greve e a manifestação ficar quilômetros de distância do local de trabalho. Não há incentivo à negociação coletiva no Brasil.

Você acredita que a Dilma fará mudanças no governo após o impeachment, ouvindo mais os movimentos sindical e sociais?
Vagner – Isso é o que temos construído porque, da mesma forma que somos intransigentes defensores da democracia e contra o golpe, na sequência da batalha contra o impeachment estaremos com a pauta dos trabalhadores exigindo mudança radical na política econômica e na forma como a agenda da classe trabalhadora foi tratada.

No projeto comandado pela Dilma ainda temos espaço para dialogar, no dos golpistas não há isso. Inclusive, porque eles não têm apreço nenhum pela organização sindical, negociação com sindicatos e querem retirar direitos dos trabalhadores.

Temos deixado claro à classe trabalhadora e dialogado nas periferias do Brasil para apontar que o problema econômico não acaba com a saída da Dilma, como prega a velha mídia. Um golpe agravaria a crise social, porque sairíamos às ruas para retomar a legalidade e teríamos uma série de juristas questionando o Temer porque faz parte da chapa da Dilma.

A crise econômica que o Brasil vive hoje é altamente potencializada pela crise política, porque não permitem que a presidenta governe. Já tivemos momentos muito piores que esse da economia, como na época do FHC, e ninguém pediu o impeachment por conta disso. Era muito pior a vida dos trabalhadores nessa época, quando tínhamos um salário mínimo irrisório, não tínhamos políticas sociais que temos hoje e tivemos que pedir socorro quatro vezes ao FMI (Fundo Monetário Internacional).
 

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