Assassinato de menino João Pedro revela grave doença social do Brasil

Política de extermínio de Witzel mata mais uma criança negra no Rio

A Covid-19, além de ceifar vidas e trazer graves consequências sobre a economia e a rotina das pessoas, é um desafio para governos e sociedades do mundo inteiro. Mas há também outra anomalia, uma doença que não é de caráter físico, mas social e exclusiva do Brasil: o genocídio de jovens e crianças negras nas favelas do país. O assassinato do menino João Pedro, de 14 anos, é mais uma prova disso.

João Pedro foi morto a tiros, na segunda-feira (18), durante uma operação conjunta das polícias Federal e Civil do RJ no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, Região Metropolitana do RJ.

Para Almir Aguiar, secretário de Combate ao Racismo da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), essa não é a primeira vez e nem será a última que um negro é morto na comunidade do Salgueiro, em São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio, como em todas as favelas da cidade e do Estado.

“Uma das mais de 70 balas que perfuraram a casa, atingiu o menino, o que não pode ser considerado um incidente. O drama nos faz lembrar o assassinato do músico Evaldo dos Santos Rosa, morto em Guadalupe após seu carro ser alvejado com cerca de 80 tiros por soldados do Exército, no ano passado, caso que teve repercussão internacional. Evaldo foi mais um negro a entrar para uma triste estatística do Brasil”, disse Almir Aguiar.

O secretário de Combate ao Racismo da Contraf-CUT lembrou que João Pedro era uma criança cheia de vida e que sonhava em ser advogado. Ele afirmou também que a atitude dos policiais de não deixar ninguém entrar na casa e a ação de socorrer o menino em um helicóptero mostram que as polícias do Rio de Janeiro e do país não têm nenhum compromisso com a cidadania e a defesa da vida.

“A questão central de mais este assassinato não pode ser discutida apenas com a tragédia social da polícia que mais mata no mundo e mata cada vez mais. São negros e negras, a maioria muito jovens, que estão sendo assassinados. As incursões policiais, que estimulam os confrontos armados criaram um estado de exceção, um estado racista: a cada 23 minutos morre um jovem negro no Brasil. E não são apenas vítimas das chamadas “balas perdidas”, um termo tosco para justificar o genocídio de pobres, quase todos negros”,

Da mesma forma que a pandemia, as incursões policiais nas comunidades pobres da cidade mudam cotidianamente a rotina dos moradores e mais pessoas são assassinadas. A cada tiroteio, as aulas são suspensas, o acesso aos serviços de saúde e a energia elétrica são interrompidos, bem como atividades econômicas do comércio local, o direito de ir e vir comprometidos e pessoas inocentes são feridas e vidas são ceifadas.

Almir Aguiar chamou a atenção para o fato de que a esmagadora maioria das vítimas é de jovens negros. “Dados de 2016 revelam que a letalidade policial não para de crescer no Brasil, chegando a quase sete mortes por cem mil habitantes. Não há dúvidas que a política de extermínio do governador Wilson Witzel (PSC) nas favelas elevou estes números ainda não atualizados”, afirmou.

Os movimentos negros e sociais já denunciaram várias vezes casos como o do menino João Pedro, que se enquadram como genocídio racial. A repercussão nas redes sociais e na opinião pública internacional também revelaram a gravidade da situação. Mas, para Almir Aguiar, ainda é pouco. “Não dá mais.
É preciso criminalizar policiais que chacinam, mesmo em serviço. Ninguém mata ao caso com quase cem tiros direcionados a uma residência de trabalhadores. É necessário também criminalizar governantes que praticam políticas genocidas e ter tolerância zero com práticas de racismo ou tudo vai continuar como está. Até quando”, questionou o secretário de Combate ao Racismo da Contraf-CUT. “A violência no Brasil tem cor e reflete todo o racismo e preconceito de uma elite branca que precisa responder por seus crimes”, completou.

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